
“Não há memória que um Bispo seja transferido assim em tão pouco tempo”
Esta será a última oportunidade de conversar com D. António Marto como Bispo de Viseu?( Sorrisos) Nos meios eclesiásticos e nos meios jornalísticos fala-se, de facto, de uma possível transferência para a Diocese de Leiria. Neste momento, não tenho nenhuma nomeação oficial. Mas tem algum fundamento a transferência de D. António Marto para Leiria?É possível que, em Fátima, tenham indicado o meu nome porque participei nos congressos sobre Fátima, escrevi artigos... Agora, de concreto, até ao momento, não há nada. Continuo na expectativa, mas é uma possibilidade e não posso descartá-la.É normal um bispo, passado ano e meio de ser nomeado para uma diocese ser transferido?Não há memória que um bispo seja transferido assim em tão pouco tempo de uma diocese para outra, pelo menos nos últimos 50 anos.Isso diz alguma coisa.Sim (pensa)...E se lhe dessem a escolher?Eu optaria por Viseu. Gosto imenso de estar aqui, tenho óptimos colaboradores, o povo é acolhedor e afectuoso. Depois, estou há pouco tempo. O primeiro ano foi para conhecer, agora é que estava a arrancar com certas iniciativas. De qualquer modo, o bispo, quando é ordenado bispo é para a Igreja universal.Sendo uma passagem rápida, o que lhe merece destaque na Diocese de Viseu?As visitas pastorais. A visita pastoral é a alma do governo do bispo, não se trata de um governo meramente burocrático, de quem preenche lugares, mas de quem está à beira do povo para animar a vitalidade da fé e do testemunho das comunidades cristãs. E, depois, a preparação para a celebração da beatificação de Madre Rita.Quais foram as grandes preocupações transmitidas durante as duas visitas pastorais que efectuou [Oliveira de Frades e Vouzela]?Primeiro, é o redespertar da fé. Vivemos num mundo completamente diferente do de há 20 ou há 30 anos. Um mundo pluralista do ponto de vista cultural e social, do ponto de vista religioso e, por conseguinte, hoje é preciso ter cristãos adultos com uma fé consciente, livre e responsável. E isso não se faz sem formação. Daí derivou a abertura da Escola de Formação Cristã para leigos.A adesão ultrapassou todas as expectativas (160 participantes). É um sinal de quê?É um sinal de que há uma ânsia de conhecer a fé por dentro. Grande parte das pessoas fica por aquilo a que chamamos a catequese infantil. Quem tem falhado?Às vezes, há falta de iniciativas muito concretas e acessíveis.Falava das preocupações registadas nas visitas pastorais.Há a necessidade de fazer da comunidade cristã uma casa e uma escola de comunhão na prestação dos vários serviços. Às vezes, olha-se para a Igreja como uma espécie de supermercado religioso, onde se vai quando é preciso, encomendar um baptizado, um casamento ou um funeral. Falta essa pertença viva. Uma terceira preocupação é a coragem da fé.A falta dela?Sim. Apoderou-se de muitos cristãos um complexo de inferioridade pelo qual têm vergonha de se assumirem como cristãos. Pensa-se que ter fé é uma coisa fora de moda. Às vezes, até se olha para os cristãos como sendo uma espécie de últimos dinossauros em vias de extinção. É preciso despertar a coragem da fé.Há hoje uma falsa ideia do que é ser cristão?Muitas vezes há. Como se reduzisse a religião a uma espécie de fardo, com um conjunto de obrigações que Deus impôs sobre os ombros das espécies mortais e não se lhe descobre a beleza, nem se lhe toma o gosto.Porquê?Muito pelo ambiente de indiferença que rodeia as pessoas, de hostilidade cultural proveniente de um racionalismo que não admite a luz da fé na vida das pessoas e, por vezes, a própria ignorância religiosa, que não permite dar respostas aos problemas culturais que se apresentam. Quando vai ao terreno sente que há pessoas com falta apoio familiar e social?A alegria sentida pelas pessoas explica tudo. Noto é que há muita gente só.Sentiu a solidão dos idosos?E não imaginava que era tanta gente. Chocou-me ver idosos que vivem sozinhos em casa, não têm mais ninguém e o que lhes vale é apoio domiciliário mas não chega. Eu tenho dito nas paróquias para haver grupos. Não é serviço exclusivo de um padre visitar os dentes e dar-lhes o apoio espiritual e moral para não sentirem solidão. Os grupos de apoio aos idosos, o chamado voluntariado cristão, é necessário.De que forma está a desenvolver a pedagogia vocacional que fala na Carta Pastoral e que constitui um problema para a Igreja?As pessoas pensam que a cultura vocacional diz apenas respeito à Igreja, mas o problema vocacional é sentido a vários níveis: os políticos queixam-se da falta de vocação, os sindicatos a mesma coisa, o associativismo, o voluntariado sofre da falta de vocação. Isto é sintoma da falta de uma cultura vocacional, e a Igreja ressente-se disso. O mundo está resignado?(risos) Não podemos ficar resignados e a primeira preocupação é envolver as comunidades cristãs. As pessoas pensam que as vocações é um problema do Bispo. Chegam aqui e dizem “Senhor bispo, precisamos de um padre”, como se eu tivesse aqui um padre disponível. É preciso fazer passar esta ideia de que o problema vocacional não se vive apenas a nível da igreja. Para tal, gostaria que em todas as paróquias houvesse um grupo de animadores vocacionais.Voltamos ao início da conversa.Exactamente. Se tivermos comunidades mais vivas de fé, teremos mais vocação.
in Jornal do Centro (adaptado)

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